Os morcegos da Rua João Pessoa

 



Uma lembrança.....


No entardecer silencioso, amarelado pelas luzinhas sem brilho de nossa cidadezinha interiorana, o repicar do sino já estava a anunciar a hora da "Ave Maria " ; horário de agradecimento, pelas dádivas diárias.

Um terço de contas pretas e roliças, ia escorregando pelas mãos de minha mãe, que orava em voz alta e ao mesmo tempo, caminhava pelos grandes aposentos de nosso casarão, numa benção para o nosso lar.


Nossa antiga R. "João Pessoa ", era o melhor caminho para os habitantes da parte alta da cidade, que desciam para as celebrações litúrgicas, na Igreja Matriz, Na.Sra.do Livramento, que começavam, pontualmente, às 7 hs da noite. Então, a igreja era o ponto de encontro das pessoas : novenas, missas, terços, mês de maio e junho, sempre festivos, assim , a igreja estava sempre lotada.


Numa terça feira de cada mês, o Pe. Abel puxava os fiéis, em duas filas, que rodeavam a Pça.e circulavam por trás da igreja, cantando o terço. Eram muitas voltas, numa caminhada lenta, até que fossem cantadas as mais de 50 Ave Marias, os mistérios, até chegar ao final, na Salve Rainha. Esse terço, rezado mensalmente, dispensava Academia; caminhar e cantar, por longo tempo, nos deixava exaustos!


Há até uma piada sobre o motivo desse terço. Dizem que Pe. Abel jogava no bicho e o sacristão, ia escondido, na casa de D.Marcolina, que morava nos arredores da igreja, pra comprar os bilhetes. Então, no dia do terço, o Pe.Abel, passando perto da casa, cantava: " Oh Sá Marcolina, qual bicho, que deu? Ela então respondia : " Ave, ave, avestruz, Ave, ave, avestruzzzzz!"


Acabando esse terço, ou outras comemorações, quase todos, voltavam a subir pela nossa rua. Aí era a hora das nossas traquinagens. Não existia TV, brincar na rua à noite, não podia, então era hora de inventar uma diversão. No nosso casarão, haviam 4 janelas envidraçadas, e o espaço entre elas e a calçada, muito estreita, era de quase 2 metros.

Nada melhor pra nos divertir, do que as pessoas que passavam debaixo de nossas janelas. Nós, os irmãos mais levados, cada um ficava numa janela, segurando uma varinha de anzol, com uma trouxinha leve e 2 penas de galinha, amarradas na ponta da linha.

Nos postes da rua, as luzes fraquinhas, não nos denunciavam, era quase uma escuridão total, que só nos permitiam identificar os vultos escuros, em movimento.


Aí era hora de cutucar as cabeças das pessoas, deixando todos muito assustados. As irmãs Batistas, sempre eram nossas vítimas:  D.Nica gritava : " Corre Marieta, tem morcego voando aqui! " E todas as outras cabeças não escapavam dos morcegos ! Em outros dias, eram latinhas cheias de água, com pequenos furos, respingando nas cabeças e todos apressavam o passo, com medo de chuva forte. O pior, era não poder dar risada, senão estragava tudo, era muito engraçado a reação das pessoas.


Minha mãe, nunca desconfiou que do outro lado da janela, acontecia tudo isso. Depois de cantar o seu terço,  rezar sua ladainha , em voz alta, ela ainda ficava absorta em suas meditações. Enquanto ela evocava a proteção de Deus, os diabinhos aprontavam todas.

Esse tempo, entre fé e brincadeiras, foi uma página de nossa infância cheia de alegrias!!


Sônia Souza/ 15.04.2021

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