Saudosas Lembranças

 


De repente, surge aquela vontade de falar das lembranças: palavras sem eco, perdidas no tempo, mas fatos arraigados no coração.

Dali se via tudo, ou quase tudo...

O entra e sai do Banco Mercantil, na Benedito Valadares, o martelo do sapateiro batendo pregos nas meias-solas dos sapatos velhos e gastos... a música Estrela D'Alva, que o sapateiro cantava e tocava em seu violão nos intervalos do serviço. Também, ao lado da sapataria, o alfaiate, cortando panos ou costurando em sua máquina.

Do outro lado, o canto repetido dos alunos da dona Almira Hostalacio, decorando a tabuada. Ela, impaciente com as respostas erradas, ficava sem entender as certas, que soavam um pouco longe de sua escola, montada em seu quintal.

As laranjeiras anãs do tio Dorcelino, vistas à distância, e o João de Melo, cochilando na cadeira de sua loja, eram parte constante do cenário dos nossos arredores.

O espaço foi se tornando pequeno, e aquela árvore gigantesca — talvez a maior da cidade — com seu tronco geminado, tombou numa morte repentina, sem ter ao seu lado as crianças amadas por ela, carinhosamente embaladas em seus braços!

Foi a babá mais amorosa que tivemos. Como era amada por nós! Fizemos balanços em seus galhos, descansamos à sua sombra copiosa. Nossos amigos se juntavam para desfrutar de tantas maravilhas. Alguns se arriscavam a descer dos galhos para o chão ou para os telhados do quintal.

Era muito verde, como a maioria das árvores, e os nossos olhos tinham muita semelhança com suas cores: uns, verdes como suas folhas; outros, negros como seus frutos.

Pretinhos, suculentos e redondinhos, seus frutos escorriam pelas bocas, aos punhados.

De um lado, sacrificada pela poda, os frutos eram enormes e desciam até suas raízes...

Na floração, exalava um perfume inebriante, atrativo para as abelhas — e, como noiva, vestia-se de alvas florezinhas brancas. Nessa época de seu “noivado”, ninguém a tocava, pois era certa uma ferroada das abelhas, suas guardiãs.

Tempos depois, toda aquela seiva viva se transformava em frutos muito verdes, como a esperança. Era seu período de gestação — sem abelhas, sem o nosso abraço —, apenas ouvindo nossas algazarras no quintal.

Passado um tempo... pinta daqui, pinta dali... ela amanhecia toda pretinha, nos convidando para o abraço. Mas ainda não era tempo de colheita, e os mais velhos diziam que as cascas das jabuticabas não estavam prontas.

A espera era longa, até que pudéssemos matar a saudade — e o tempo não passava...

De repente, numa manhã, era liberado o nosso encontro.

Os vizinhos e amigos eram recebidos para compartilhar tantas delícias. Sempre havia muitas pessoas ao mesmo tempo, durante muitos dias, em seus galhos, até que ela se despisse por completo dos frutos.

Aí era a época de fazermos nossos cantinhos de lazer com seus galhos amarrados e ficarmos bem pertinho do céu e das nuvens flutuantes. Sempre estávamos em cima da árvore — tivesse frutos ou não —, até a próxima época de floração.

Eu sempre ficava toda arranhada e ardida, e, ao barulho de um trovão, todos desciam assustados...

Como amei essa jabuticabeira!

As jabuticabas de hoje não têm todos os encantos da jabuticabeira da nossa infância!


Sônia Souza 

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